Confira o trecho inédito de "Vínculo Profano"
Abri os olhos. A luz cinzenta da manhã filtrava-se pela cortina bege, não mais capaz de esconder a sujeira, mas iluminando o campo de batalha do quarto. Roupas rasgadas, uma cadeira partida, lençóis emaranhados. O ar estava pesado, misturado ao cheiro de mofo que os humanos tentavam disfarçar com produtos químicos, havia o odor metálico de sangue seco da noite anterior, o almíscar selvagem de Ronan e o cheiro característico de Caspian. E eu estava no centro de tudo, imprensada entre os dois.
Meu corpo doía de uma forma deliciosa, cada músculo vibrando com a exaustão. Mas sob a dor física, havia algo mais. Um zumbido.
Levantei meu braço esquerdo, que estava jogado sobre o peito nu de Ronan. Na pele pálida do meu pulso, a runa complexa que surgiu ontem, desconhecida, antiga demais, de tinta preta e vibrante, pulsava com uma energia errática, como um circuito aberto. Quente ao toque.
Virei minha cabeça no travesseiro. O braço de Caspian estava jogado sobre minha cintura, possessivo mesmo durante o sono. E ali, em seu pulso, a mesma marca. Uma prova física do nosso vínculo.
Quando pensei isso, a conexão se abriu, não como vozes, mas como uma inundação de sentimentos. Uma Embriaguez Sensorial: era como tomar muito mais do que a quantidade aceitável de vinho de fadas. Do lado de Caspian, senti o vazio gelado de sua Magia Vital e aquela fome paciente. Do lado de Ronan, o calor inquieto de sua Magia Primal, uma necessidade territorial de se mover.
Eu não conseguia distinguir onde eu terminava e eles começavam. Fiquei confusa pela sensação inquietante, acompanhada pela fome oca e antiga, que não era minha. Senti um certo pânico.
Vi Caspian se mexer. Seus olhos azuis gelados se abriram e focaram em mim. O meu pânico pareceu ecoar nele, eu podia sentir com fascínio e assombro, mas o que quer que fosse foi rapidamente substituído por algo mais sombrio. Poder.
— Você está com fome — ele sussurrou — mas não a sua fome.
Não foi uma pergunta. Eu senti a percepção dele sobre mim. Ele não estava apenas lendo meus sentimentos; ele estava sentindo minha fome através da dele. Ele acordou não com um som, mas com uma emoção que não era só dele: ele sentiu o mesmo que eu.
Caspian fechou os olhos e quando os abriu novamente estavam vermelhos pela explosão do seu poder e me encarou. Seus olhos imediatamente voltaram a ser azuis e encaravam os meus que estavam arregalados. O cheiro dele, acentuava o meu, de luar e flores silvestres, que percebi estar por toda parte, misturado ao cheiro de lobo de Ronan.
Eu era deles e eles eram meus. A runa provava isso e esses sentimentos amplificados e estranhos também.
Ele sentiu minha constatação, o instinto do herdeiro do Trono de Desejo e Obsidiana, era reivindicar o que era dele, percebi pela mudança em sua postura e por um vislumbre na mudança de sua intenção. O Ritual de Alimentação da noite anterior havia apenas aguçado seu apetite por mim e senti a fome dele amplificada como uma fome própria. Levei a mão ao meu estômago como se fosse aplacá-la com o gesto.
Ele sentou-se, o lençol caindo de seu quadril. Eu o observei, cautelosa.
— Aryadne, venha até aqui — ele sussurrou, tão diferente da demanda que sempre ordenava, essa era uma face desconhecida do meu vampiro.
Ele se aproximou, deslizando sobre mim. Sua intenção era clara. Ele me beijou, um beijo lento, possessivo, provando o gosto da noite em meus lábios.
E então, o Vínculo contra-atacou.
Uma onda de fúria assassina e ciúme bruto, veio tão forte que nos fez recuar. Mas não era minha, nem de Caspian. Vinha do outro lado da cama. Eu não apenas vi Ronan acordar e nos encarar; eu senti a Fúria Bestial dele como se fosse minha. Senti o seu rosnado vibrar em minha própria garganta.
Afastamo-nos, confusos. Vi Caspian enrijecer, seus olhos se fechando com o impacto das emoções que nosso Vínculo estava transmitindo.
— Saia de cima dela, morcego — rosnou Ronan, a voz perigosamente baixa.
Caspian o ignorou, voltando-se para mim. Ele tentou focar em mim. Estava tentando puxar as sombras do quarto para envolver-me, para silenciar o "ruído" do lobo, descobri fascinada que podia ler sua intenção tão claramente. Mas as sombras não vieram. Elas pareceram recuar, um tanto hostis, repelidas pelo calor primal que irradiava de Ronan.
— Minha magia. — A voz de Caspian era um sussurro chocado, de confusão real. — Parece errada.
Pela primeira vez em séculos, vi o grande Príncipe Vampiro parecer perdido. A minha magia estava confusa e parecia que a de Caspian também.
Aproveitei a tensão e saltei da cama, nua e desafiadora.
— Parem, precisamos sair daqui — disse eu com uma voz trêmula que não combinava comigo, encarando-os — Temos que nos acalmar e tentar descobrir como nos controlar. Vamos para o meu apartamento. Encontrem-me lá.
Fechei os olhos, focando na imagem do meu quarto, na segurança da minha "gaiola dourada". Mas no instante em que eu pareci conseguir, o Vínculo respondeu. Caspian e Ronan gemeram ao mesmo tempo. A fome fria de um. A raiva territorial do outro. A possessividade deles. Eram gritos na minha mente, um ruído branco caótico que rasgou minha concentração e aparentemente a dos dois.
Abri os olhos, confusa, tropeçando para trás. Era possível sentir a minha magia ali, mais poderosa do que nunca, borbulhando sob minha pele, mas eu não conseguia me concentrar o suficiente para usá-la. Era como tentar sintonizar uma rádio em meio a uma tempestade.
— Eu não consigo focar! Há tanto poder! — Eu gritei para ambos, a frustração queimando em meus olhos. — Eu sinto vocês, e nos sinto, é como se houvesse uma interferência!
